Uma perfuração no leste da Turquia reacendeu uma pergunta antiga: a Arca de Noé foi encontrada? A resposta, por enquanto, é não. Há uma investigação em andamento numa formação rochosa que lembra o contorno de um barco. Nenhum resultado apresentado até agora demonstra que ela seja uma embarcação — muito menos a arca descrita na Bíblia.
O assunto ganhou força nas buscas brasileiras nesta segunda-feira, 28 de setembro, depois que a equipe Noah’s Ark Scans divulgou o início da coleta de amostras na formação de Durupınar, perto do monte Ararat. O anúncio é real. A conclusão espetacular que circula junto dele ainda não é.
Por que a Arca de Noé voltou às notícias
Em comunicado de 23 de setembro, o grupo informou que começou a perfurar o terreno para retirar amostras a até 18 metros de profundidade. Também disse preparar um pequeno equipamento para examinar espaços identificados em levantamentos anteriores. A operação é conduzida com pesquisadores de universidades turcas, segundo a própria equipe.
O título do comunicado fala em uma broca quebrada numa “possível camada de madeira petrificada”. A palavra decisiva é possível. Uma broca danificada mostra resistência no subsolo; sozinha, não identifica madeira, idade ou origem humana. Para sustentar essa interpretação, seria preciso divulgar análises das amostras, métodos e resultados examináveis por outros especialistas.
A página de pesquisa do próprio projeto reconhece que as hipóteses de origem natural e de intervenção humana ainda exigem verificação geológica e geofísica. O fundador, Andrew Jones, declara acreditar que o local seja a arca. Essa é uma convicção dele, não uma confirmação científica.
Por que Durupınar divide opiniões
A formação, conhecida há décadas, tem cerca de 157 metros e um formato que, visto do alto, lembra um casco. Essa semelhança explica o fascínio. Mas forma não é prova: a natureza também produz contornos surpreendentemente regulares.
O lugar foi fotografado e debatido desde o século passado. Por isso, cada anúncio de “descoberta” precisa ser lido com uma pergunta simples: o que é realmente novo? Desta vez, a novidade é a campanha de perfuração e a promessa de examinar amostras. A identificação do contorno como um barco permanece uma hipótese antiga. Nem o tamanho aproximado nem a proximidade com a região citada no Gênesis resolvem a origem do terreno.
Em estudo publicado no Journal of Geoscience Education, o geólogo Lorence Collins e David Fasold — que antes havia defendido a identificação com a arca — analisaram materiais atribuídos a peças da embarcação. Eles interpretaram as supostas estruturas de madeira e metal como rochas e minerais naturais e descreveram a formação como uma estrutura geológica. Os novos pesquisadores contestam essa leitura e buscam dados adicionais.
É justamente aí que a pesquisa atual pode ser útil. Amostras bem documentadas, resultados laboratoriais e avaliações independentes podem testar explicações concorrentes. Uma nota de imprensa, imagens de radar ou um vídeo de exploração não substituem esse processo.
Também importa separar descoberta de interpretação. Encontrar matéria orgânica no solo, por exemplo, não significa encontrar tábuas de um navio. Seria necessário demonstrar que o material pertence a uma estrutura construída, esclarecer sua idade e afastar explicações geológicas comuns. Até agora, esses passos não foram apresentados publicamente pela equipe.
O que se pode dizer hoje
Há uma campanha de campo autorizada e uma hipótese que atrai interesse religioso e científico. Não há, no material público consultado até 28 de setembro, comprovação de madeira de uma embarcação antiga, nem consenso de que Durupınar seja a Arca de Noé. Notícias que tratam a descoberta como “confirmada” vão além das evidências disponíveis.
Respeitar a força da narrativa bíblica não exige transformar uma escavação inconclusa em certeza. Se a equipe encontrar algo decisivo, isso precisará sobreviver ao exame de outros pesquisadores. Até lá, o mistério continua sendo uma pergunta aberta — e a resposta honesta é parte da história.
