Neste domingo, sacolinhas de doces voltam a circular pelas ruas brasileiras. Para muita gente, é uma lembrança de infância. Para quem prepara a festa de Cosme e Damião, é também promessa, devoção e trabalho comunitário. O gesto parece simples, mas conta uma história que o Brasil não deveria reduzir a uma disputa sobre quem “inventou” a tradição.
Por que 27 de setembro, se a Igreja celebra em 26?
A celebração de 27 de setembro movimenta bairros, igrejas, terreiros e cozinhas. Em 2026, a Prefeitura de Maricá, no Rio de Janeiro, anunciou uma festa pública neste domingo. Em Belo Horizonte, comunidades organizaram encontros com doces, brincadeiras e atividades para crianças, segundo a programação divulgada pelo Hoje em Dia.
A diferença de datas costuma causar confusão. No calendário litúrgico católico atual, a memória dos santos médicos Cosme e Damião ocorre em 26 de setembro, como registra o Vatican News. No Brasil, a festa popular se firmou em 27 de setembro, dia especialmente associado às celebrações de matriz africana e à distribuição de doces.
Uma data não apaga a outra. A devoção católica recorda os irmãos ligados ao cuidado gratuito dos doentes. Em diferentes tradições de umbanda e candomblé, o dia dialoga com os Ibejis e com expressões religiosas voltadas à infância. As práticas variam entre casas, cidades e famílias; tratá-las como se fossem uma única cerimônia empobrece todas elas.
O que a sacolinha carrega
No Rio, a alegria costuma aparecer nas filas de crianças e nos pacotes oferecidos de porta em porta. Na Bahia, o caruru ocupa lugar central em muitas festas. O governo baiano reconheceu a Festa do Caruru de São Cosme e São Damião como patrimônio cultural imaterial do estado em 2024. O reconhecimento lembra que comida, fé, memória e encontro de gerações fazem parte da mesma história.
Há também quem distribua doces por gratidão a uma promessa atendida, quem participe pela tradição da vizinhança e quem prepare tudo como atividade de um terreiro. A Secretaria da Cultura do Espírito Santo descreveu uma ação comunitária que uniu a entrega de doces à valorização da cultura da infância e da matriz africana. É uma amostra de como a festa ultrapassa o calendário religioso e ocupa o espaço público.
Isso exige respeito. Ninguém precisa partilhar uma crença para reconhecer o valor de uma tradição popular. Tampouco é preciso transformar a fé alheia em curiosidade exótica. Crianças, cozinheiras, voluntários e lideranças religiosas não são figurantes: são as pessoas que mantêm a festa viva.
Uma festa que se renova na rua
Ao encontrar uma celebração hoje, vale observar a orientação de seus organizadores, respeitar os rituais e acompanhar as crianças. Se a intenção for contribuir, procure uma iniciativa local e pergunte do que ela realmente precisa. Doce, brinquedo, tempo de trabalho ou apoio para a cozinha podem ter mais valor quando chegam do jeito combinado pela comunidade.
O pacote de doces acaba depressa. O que fica é a lembrança de uma rua capaz de partilhar, de uma cultura que sobrevive pela mão de muita gente e de uma infância que, por um dia, ocupa o centro da festa.
