Juarez Machado morreu aos 85 anos, na terça-feira, 6 de outubro. A notícia encerra uma vida, mas deixa uma pergunta difícil de responder em uma linha: como lembrar um artista que fez da pintura, da mímica, do desenho e da televisão partes da mesma obra?
A Prefeitura de Joinville, cidade natal do artista, confirmou a morte no interior do Rio de Janeiro e decretou três dias de luto oficial. A causa não foi informada pelas fontes consultadas. É tempo de olhar para o que ele criou, sem preencher esse silêncio com especulações.
O homem que desenhava com o corpo
Para muita gente, a primeira lembrança de Juarez não está em uma galeria. Está na televisão dos anos 1970. No Fantástico, ele aparecia como mímico e interagia com os próprios desenhos. O traço saía do papel e parecia continuar no gesto. A biografia publicada pelo Instituto Internacional Juarez Machado registra que esse trabalho o tornou conhecido em todo o país.
Essa cena resume algo raro em sua trajetória: Juarez não tratava as linguagens artísticas como caixas separadas. Foi pintor, ilustrador, cenógrafo, escultor e caricaturista. Também participou da produção de videoclipes e musicais de nomes como Elis Regina e Raul Seixas, segundo a prefeitura. A vontade de experimentar atravessou décadas e diferentes públicos.
Nascido em Joinville em 1941, passou pelo Rio de Janeiro e se estabeleceu também em Paris nos anos 1980. A circulação internacional ampliou o alcance da obra, sem romper o vínculo com a cidade onde nasceu. A dimensão desse vínculo aparece agora no luto oficial, mas já estava impressa nas ruas.
Uma obra que a cidade encontra sem entrar em museu
Na fachada do Centreventos Cau Hansen, em Joinville, está O Grande Circo. O registro municipal descreve o mural de 90 metros quadrados, formado por 963 peças cerâmicas pintadas à mão. No mesmo complexo, um teatro leva seu nome. São marcas públicas de um artista que gostava de pôr personagens em movimento.
Há outra forma de encontrar esse legado. Inaugurado em 2014, o Instituto Internacional Juarez Machado ocupa o antigo endereço da casa de seus pais. O espaço reúne obras, recebe exposições de outros artistas e promove atividades educativas. Não é apenas um lugar para conservar quadros: mantém aberta a conversa entre a produção de Juarez e novas gerações.
Ainda segundo a prefeitura, Joinville lhe concedeu em 2015 a Medalha do Mérito Princesa Dona Francisca, sua maior honraria. A homenagem reconheceu uma contribuição cultural que já ultrapassava fronteiras. Hoje, a cidade se despede de alguém que ajudou a projetar seu nome, mas a melhor medida dessa contribuição talvez seja mais simples: as pessoas ainda podem ver, visitar e discutir o que ele deixou.
O que permanece depois da despedida
A morte de um artista costuma produzir uma corrida por frases definitivas. A obra de Juarez Machado resiste a elas. Há humor nas figuras, memória nas cenas, teatro na composição e uma curiosidade que não se acomoda a um único formato. O mímico do Fantástico e o autor de um grande mural são a mesma pessoa, mas nenhuma dessas imagens o explica por inteiro.
O instituto mantém informações sobre exposições e visitas em seus canais oficiais. Para quem conhece apenas o nome, esse é um caminho concreto para encontrar a obra. Para quem o viu desenhar na TV, é a chance de descobrir quantas outras vidas couberam naquele gesto.
Juarez Machado saiu de cena. Seus personagens, porém, continuam ocupando paredes, páginas, lembranças e olhares. Uma homenagem à altura começa quando a gente volta a olhar.
