Oito séculos depois da morte de São Francisco de Assis, famílias voltam a levar cães e gatos às igrejas para receber uma bênção. Neste domingo, 4 de outubro, o gesto atravessa cidades brasileiras enquanto o país também vai às urnas. Há ternura na cena. Mas a lembrança do santo pede uma pergunta menos confortável: o carinho pelos animais continua depois que a foto acaba?
Francisco morreu em 3 de outubro de 1226. A Igreja celebra sua memória no dia 4. Em 2026, o Vaticano instituiu um ano especial para marcar os 800 anos de sua morte e destacou uma mensagem de paz que vai além das cerimônias. A festa deste domingo ganha, assim, um peso histórico raro.
Oito séculos depois, uma celebração viva
Onde haverá bênção dos animais neste domingo
Na Basílica Santuário São Francisco de Assis, em Brasília, a arquidiocese anunciou bênçãos das 7h às 19h e nove missas ao longo do dia. A programação foi mantida apesar da eleição. A comunidade também recebe alimentos não perecíveis para suas ações sociais.
Em Belo Horizonte, o Santuário São Francisco de Assis, na Pampulha, programou bênçãos às 8h, 11h e 17h neste domingo. A festa reúne oração, música, iniciativas socioambientais e atividades ligadas ao bem-estar animal.
Já o Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade, Goiás, divulgou dois horários para a bênção dos pets: 9h e 15h. A programação varia por local; quem pretende participar deve conferir as orientações da comunidade antes de sair e respeitar as necessidades do próprio animal.
Por que Francisco é lembrado junto dos animais
A relação do santo com a criação tornou-se uma das imagens mais conhecidas do cristianismo. O papa Leão XIV, em carta sobre os 800 anos, recordou seu testemunho de paz e fraternidade. O decreto do ano franciscano também menciona o Cântico das Criaturas, em que a beleza do mundo natural aparece como motivo de louvor.
Por isso, a bênção não deveria ser vista como um amuleto nem como substituta de cuidado veterinário. Para os fiéis, é um ato de gratidão e uma lembrança de responsabilidade. Para quem não compartilha da fé católica, a celebração ainda pode provocar uma reflexão simples: que tipo de convivência construímos com os seres vivos ao nosso redor?
O desafio começa em casa. Um animal depende de água, alimentação adequada, abrigo, atenção e segurança nos dias comuns, inclusive quando envelhece ou adoece. A mesma sensibilidade pode alcançar os animais abandonados e as pessoas que dedicam tempo a protegê-los. Nada disso cabe numa única cerimônia.
Uma festa que não termina na porta da igreja
Em Brasília, a coleta de alimentos une a festa à solidariedade. Em Belo Horizonte, a programação aproxima a devoção de iniciativas sociais e ambientais. São escolhas coerentes com a dimensão da fraternidade lembrada neste jubileu, sem reduzir Francisco à imagem simpática de um santo cercado de passarinhos.
Levar um pet para receber uma bênção pode ser um momento bonito. O sentido mais difícil vem depois: cuidar dele com constância e ampliar esse cuidado para a vida que existe fora do nosso quintal. Oito séculos após Francisco, essa continua sendo uma maneira concreta de transformar afeto em atitude.
