Uma loja de artigos católicos recebeu uma ameaça de morte. Na mesma madrugada, outros comércios de artigos religiosos, incluindo de umbanda, foram atacados no centro de Fortaleza. Quase um mês depois, a pergunta continua urgente: como proteger a liberdade de fé quando até seus símbolos e espaços viram alvo?
Os ataques ocorreram em 9 de setembro. Quatro estabelecimentos foram atingidos por tentativas de incêndio, segundo relatos reunidos pela Agência Brasil e pela Folha de S.Paulo. As reportagens divergem sobre quantas lojas pertenciam a cada tradição religiosa; por isso, essa distribuição não pode ser tratada como fato fechado. A Polícia Civil do Ceará investiga os casos. A autoria e a motivação ainda não estão confirmadas.
Uma ameaça que ultrapassa a porta da loja
O comércio vende objetos. Mas também guarda histórias, rituais e vínculos de uma comunidade. A tentativa de incendiá-lo atinge quem trabalha ali e manda um recado de medo a quem entra para comprar uma imagem, uma vela ou um objeto de culto.
Não é preciso igualar a experiência de todas as religiões para reconhecer o que houve em Fortaleza. Católicos e umbandistas têm histórias distintas no Brasil; as religiões de matriz africana enfrentam uma perseguição estrutural especialmente persistente. O ponto comum é simples: ninguém deveria ter de esconder a própria fé para se sentir seguro.
A Constituição protege a liberdade de consciência e de crença, o exercício dos cultos e os locais onde eles acontecem. É uma garantia para quem reza de maneiras diferentes — e também para quem não segue religião alguma.
Os números mostram que o problema vai além de um caso
Reportagem publicada em 2 de outubro pela Agência Brasil, com base em dados do Disque 100, informa que o primeiro semestre de 2026 registrou 1.252 denúncias com pelo menos uma violação relacionada à liberdade de crença ou à intolerância religiosa. Denúncia não equivale a crime comprovado, e o total não mede sozinho quantos episódios ocorreram: muita gente pode não denunciar.
No recorte apresentado pela reportagem, as denúncias envolvendo praticantes de candomblé e umbanda passaram de 192 no primeiro semestre de 2025 para 270 no mesmo período de 2026. Entre católicos, foram de 15 para 34. São grupos com tamanhos e trajetórias diferentes; comparar apenas os totais seria enganoso. O dado relevante é que ambos aparecem nas notificações, enquanto o peso histórico do racismo religioso sobre os terreiros exige atenção própria.
Em 30 de setembro, o ministro Flávio Dino determinou que a Polícia Federal investigue uma série de ataques a imagens religiosas em diferentes partes do país. A medida apura possíveis crimes; não identifica, por si só, responsáveis pelos episódios de Fortaleza.
O que fazer diante de uma ameaça
Se houver perigo imediato, a prioridade é sair do local e chamar a polícia pelo 190. Para relatar violação de direitos humanos, o Disque 100 recebe denúncias e as encaminha aos órgãos competentes. Fotografias, mensagens e relatos de testemunhas podem ajudar uma investigação, desde que preservados com segurança.
Também importa resistir à pressa de apontar culpados nas redes. Há investigação em curso, e transformar suspeitas em certezas pode ferir inocentes e atrapalhar a apuração. Cobrar respostas, proteger vítimas e recusar a intimidação são atitudes mais firmes do que espalhar boatos.
A fé de alguém não diminui a liberdade de outra pessoa. Quando uma porta religiosa é ameaçada, é a liberdade de todos que precisa ser defendida.
