Você pode querer doar órgãos e nunca ter contado isso a quem mora com você. No Brasil, esse silêncio pesa: depois da morte, a doação depende da autorização familiar. No Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado neste domingo (27), a pergunta mais útil talvez não seja “você é doador?”, mas “sua família sabe o que você deseja?”.
O que muda quando a família conhece sua vontade
A data, criada pela Lei 11.584/2007, mobiliza hospitais, associações e serviços de saúde pelo país. O Setembro Verde da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos reúne ações em diferentes estados, inclusive neste domingo. O assunto não é distante: quase 50 mil pessoas aguardam um órgão no Brasil, segundo informação divulgada pela rede federal de hospitais universitários em 21 de setembro.
Há um equívoco persistente: imaginar que marcar “doador” em algum documento resolve tudo. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde explica que, no processo brasileiro de doação após a morte, os familiares são consultados e precisam consentir. Não é necessário registrar a intenção em documento ou cartório para conversar sobre ela. Quando a família conhece o desejo da pessoa, fica mais preparada para responder num momento de luto.
Isso não transforma a família em obstáculo. Ela é chamada a decidir em circunstâncias difíceis, enquanto recebe informações de profissionais de saúde. A conversa feita com calma, antes de qualquer urgência, respeita tanto a vontade de quem deseja doar quanto o sofrimento de quem ficará responsável pela autorização.
Existe um registro digital, mas a conversa continua essencial
Desde 2024, maiores de 18 anos podem formalizar gratuitamente a vontade de doar por meio da Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO), regulamentada pelo Conselho Nacional de Justiça e emitida pelo e-Notariado com a participação de um tabelião. O documento ajuda a deixar a intenção clara e pode ser revogado. Ainda assim, orientações oficiais do serviço dizem que a família será consultada no momento da doação.
Também não basta uma declaração de vontade para que a doação aconteça. Equipes de saúde precisam confirmar as condições clínicas, seguir protocolos, verificar a viabilidade dos órgãos e acionar a rede de transplantes. A rede federal de hospitais universitários descreve esse caminho como trabalho conjunto de profissionais, centrais estaduais e familiares.
O Sistema Único de Saúde financia integralmente as atividades ligadas à doação e cerca de 95% dos transplantes realizados, informa o Ministério da Saúde. A distribuição dos órgãos segue critérios técnicos e listas de espera administradas pelas centrais de transplantes, não uma escolha pessoal do doador ou da família.
Uma conversa possível para hoje
Não é preciso transformar o almoço de domingo em uma reunião solene. Dizer com clareza “eu gostaria de doar meus órgãos, se isso for possível” e ouvir as dúvidas de quem está perto já abre caminho. Quem não deseja doar também pode comunicar sua posição. O essencial é não deixar a família adivinhar.
O Dia Nacional da Doação de Órgãos lembra uma realidade dura: uma decisão íntima pode chegar às mãos de outras pessoas no pior dia da vida delas. Falar agora não elimina a dor futura, mas evita que o silêncio decida por você.
